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10º Plano de Pastoral da Arquidiocese de São Paulo
Discípulos-missionários na cidade de São Paulo

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APRESENTAÇÃO

 

OBJETIVO GERAL DO 10° PLANO DE PASTORAL

 I. O MARCO DA REALIDADE (Ver)

1. Os impulsos missionários de Aparecida e CNBB

2. A Igreja em São Paulo

2.1. Uma história de fé, missão e solidariedade

2.2. Testemunhas de Deus na cidade

2.2.1. Santos e beatificados que viveram nesta cidade

2.2.2. O Apóstolo Paulo, Patrono da Arquidiocese

2.2.3. Centenário da Arquidiocese: lição de fé e missão

            3. O campo da missão e seus desafios

3.1. A cidade com sua dinâmica

3.2. A cultura com suas expressões urbanas

3.3. As dimensões política, econômica e social

3.4. A diversidade de credos e expressões de fé

 

II. MARCO TEOLÓGICO-PASTORAL (Julgar) 

1. Jesus Cristo, Sacerdote, Profeta e Pastor

1.1 Jesus Cristo, o Santificador da humanidade

1.2. Jesus Cristo, Palavra do Pai para a vida do mundo

1.3. Jesus Cristo, o Pastor bom

 2. A Igreja participa da missão de Cristo

2.1. Povo reunido na comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo (DAp 155-163)

2.2. Povo identificado com Cristo (DAp 136-142)

2.3. Povo animado e assistido pelo Espírito Santo (DAp 149-153)

2.4. Povo chamado a viver a santidade (DAp 129-142; 505)

2.5. Povo enviado a anunciar o Evangelho (DAp 143-148)

2.6. Povo que caminha a serviço da vida, da justiça e da esperança (GS)

2.7. Povo chamado a ser sujeito de transformação social (DAp 394, 397; Puebla)

            3. Missão permanente e conversão pastoral

3.1. O encontro pessoal com Cristo, fonte de missão e conversão pastoral

3.2. Compromisso com uma pastoral de conjunto, em comunhão e participação (DAp 368-369; 371)

3.3. Renovação das estruturas eclesiais, a serviço da missão (DAp 173; 365)

3.4. Plano de pastoral, resposta missionária aos apelos de Deus no cotidiano (DAp 365-377)

3.5. De uma pastoral de manutenção para uma pastoral missionária (DAp 370)

3.6. Utilização das novas tecnologias e linguagens (DAp 484-490)

3.7. Compromisso com o saneamento básico e a preservação da natureza (DAp 470-475)

4. Dimensões da missão dos discípulos (DGAE)

4.1. Serviço (pessoa, comunidade, sociedade)

4.2. Anúncio (pessoa, comunidade, sociedade)

4.3. Diálogo (pessoa, comunidade, sociedade)

4.4. Testemunho de comunhão (pessoa, comunidade, sociedade)

 

III. DISCÍPULOS EM MISSÃO NA CIDADE DE SÃO PAULO (Agir)

1. A missão dos discípulos e discípulas segundo o tríplice múnus de Jesus Cristo

1.1. Celebrar a vida na comunidade e na cidade (missão sacerdotal)

A. Pistas para a ação

1º. Com atenção à pessoa

2º. Com atenção à comunidade

3º. Com atenção à sociedade

B. Destaques

1.2. Anunciar a Palavra de Deus e formar discípulos (missão profética)

A. Pistas para a ação

1º. Com atenção à pessoa

2º. Com atenção à comunidade

3º. Com atenção à sociedade

B. Destaques

1.3. Servir pela prática da caridade (missão pastoral)

A. Pistas para a ação

1º. Com atenção à pessoa

2º. Com atenção à comunidade

3º. Com atenção à sociedade

B. Destaques

2. Comunidades de discípulos em missão, como sujeitos da ação evangelizadora

2.1. A Arquidiocese, lugar privilegiado de comunhão e participação

2.2. Regiões

2.3. Setores

2.4. Paróquia, comunidade de comunidades

2.4.1. Paróquias em formação

2.4.2. Comunidades Eclesiais de Base

2.4.3. Novas comunidades

2.5. Organismos co-responsáveis pela missão

2.5.1. Organismos de reflexão e ação pastoral paroquial – CPP

2.5.2. Organismo de sustentação à pastoral – Conselhos de Assuntos Econômicos

3. Discípulos com vocações específicas

3.1. Vocações e ministérios

3.2. Ministros ordenados

3.3. Consagrados e consagradas

3.3.1. Comunidades de religiosos e religiosas

3.3.2. Institutos missionários

3.3.3. Institutos Seculares

3.3.4. Leigas consagradas

3.4. Família, discipulado e compromisso missionário

3.4.1. Famílias em situação especial

3.5. Leigos, discípulos em missão

3.5.1. Comunidades em ambientes profissionais

3.6. Comunidades de situação ou de passagem, que aspiram a uma situação mais digna

4. Iniciação cristã e formação permanente para a missão

4.1. Lugares do encontro com Cristo

4.2. Espaços de formação

4.3. Formação específica

5. Missão ad gentes: compromisso missionário de todos os discípulos de Jesus Cristo

 

SIGLAS

 

IV. ANEXOS

1. Considerações sobre planejamento e missão da Igreja

2. O Novo Plano de Pastoral

3. Pressupostos para uma pastoral de conjunto: comunhão e participação

4. Alguns elementos do método ver, julgar e agir

4.1. Conhecer o contexto da missão

4.2. Observar  as referências teológico-pastorais

4.3. Transformar a realidade

4.4. Avaliar, para melhorar

 

NOTAS

 

                 


OBJETIVO GERAL DO 10° PLANO DE PASTORAL[1]

Discípulos-missionários na cidade de São Paulo

 

I. O MARCO DA REALIDADE (Ver)

 

1. Os impulsos missionários de Aparecida e CNBB

A V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe (Conferência de Aparecida) e as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2008-2010 (DGAE) voltam a extrair da experiência do encontro com o Senhor Ressuscitado as razões, motivações e impulsos para a ação evangelizadora da Igreja.

Esses documentos vêm proclamar que somos enviados como testemunhas da grande alegria e da vida nova que nascem do encontro com Jesus. Nem mesmo as adversidades que invadem a cidade e nossas vidas podem arrancar de nós essa alegria. Ela é o antídoto que pode nos proteger contra o mal-estar gerado pela violência, a corrupção, a falta de recursos e outros males que afetam a vida.

Nesse espírito, a Arquidiocese de São Paulo convoca todos os seus filhos e filhas para viverem como discípulos-missionários no cotidiano da cidade. Cada um, conforme o dom que recebeu, com a capacidade que Deus lhe concedeu (cf. 1Pd 4,10-11), é chamado a evangelizar.

“Comunidade missionária” (DGAE 9), a Igreja em São Paulo não se cansa de animar a todos, “como pessoas dignas do Evangelho de Cristo” (Fl 1,27), para responderem a essa vocação, pois “a missão não é tarefa opcional, mas parte integrante da identidade cristã” (DGAE 7). A Arquidiocese confessa com alegria sua fé em Cristo Ressuscitado e proclama, como Pedro: - “Só tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68). A fé no “Messias, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16), é o caminho para o Pai, no Espírito Santo.

O grande impulso para a missão é a alegria do encontro com Jesus: “Conhecer a Jesus Cristo pela fé é nossa alegria; segui-lo é uma graça, e transmitir este tesouro aos demais é uma tarefa que o Senhor nos confiou ao nos chamar e nos escolher. Com os olhos iluminados pela luz de Jesus Cristo Ressuscitado, podemos e queremos contemplar o mundo e a história” (DAp 18).

 

2. A Igreja em São Paulo

Interpelados pelo Espírito, que nos reúne em comunhão, é que nos dirigimos aos diferentes espaços da cidade de São Paulo, às diferentes etnias que nela residem, com o propósito de comunicar que Deus habita em nossa cidade: “Eis que estou convosco todos os dias” (Mt 28,20).

Isso quer dizer que este momento é um tempo de graça, pois cabe a nós revelar e testemunhar essa presença de Deus. As transformações da cidade não são motivos para desânimo. São desafios que podem nos ajudar, com a graça de Deus, a discernir os sinais dos tempos, a compreender melhor o Evangelho e a tradição eclesial (cf. DGAE 12).

Contemplamos a história da Igreja na história da cidade de São Paulo, desde os primeiros missionários que aqui chegaram, viveram e testemunharam o amor a Jesus Cristo, à sua Palavra e à Igreja. Junto à população nativa e aos imigrantes, eles souberam revelar a misericórdia de Deus. Apesar dos inevitáveis limites, com eles aprendemos a ser discípulos-missionários, a reconhecer os valores da fé, da ética e da solidariedade, que repercutiram na formação da cidade.

A Igreja em São Paulo brotou e cresceu de uma raiz missionária, tem uma história de discipulado e missão. Uma história que continua hoje, com novo impulso e vigor, à luz das Conclusões de Aparecida, das Diretrizes Gerais e deste Plano de Pastoral.

A fé nos ensina que Deus vive em meio às alegrias e dores, às esperanças e decepções dos cidadãos. Como moradores desta cidade e membros desta Igreja, somos convocados a anunciar a presença de Deus e a testemunhar seu projeto para a cidade, um projeto que “já está se realizando em Jesus Cristo” (DAp 515).

 

2.1. Uma história de fé, missão e solidariedade

Desde seu primeiro núcleo, reunido pela fé em torno do Colégio de Piratininga, a cidade de São Paulo se consolidou e se expandiu numa história rica em práticas de solidariedade, iluminadas pela evangelização. Essas ações influenciaram a construção da civilização urbana.

São Paulo é espaço de liberdade e de oportunidades, mesmo com seus desafios. Nela, podemos conhecer mais pessoas, interagir e conviver melhor, estabelecer vínculos de fraternidade e de solidariedade. As sombras que muitas vezes nos assustam, a violência, a pobreza, o individualismo, a exclusão social, também nos impulsionam a buscar e a contemplar a presença do Deus da vida na cidade. Para testemunhar essa presença e transformar o dia-a-dia, precisamos enfrentar as provocações do mundo urbano, do mercado, da tecnologia e da ciência, quando negam os verdadeiros valores humanos e evangélicos.

São Paulo possui reservas de fé e solidariedade para se tornar espaço de realização e de bem-estar para todos. Apesar das limitações que muitas vezes obscurecem seu dia-a-dia, nela, os “rostos sofredores” das pessoas que vivem nas ruas, dos migrantes, enfermos, dependentes químicos e detidos em prisões, entre outros (cf. DAp 407-430), podem encontrar o conforto e o apoio das comunidades eclesiais. Em São Paulo, construímos e experimentamos vínculos de fraternidade, solidariedade e universalidade. Nela, cada um de nós “é constantemente chamado a caminhar sempre mais ao encontro do outro, conviver com o diferente, aceitá-lo e ser aceito por ele” (DAp  514).

Que São Paulo é espaço da vida e paz pode-se constatar na multidão de trabalhadores que cuidam do seu dia-a-dia, na ação dos bombeiros, do pessoal da limpeza, do transporte, da saúde, da educação, da segurança, das pastorais, das comunidades eclesiais de base, das organizações, dos movimentos. Em São Paulo, a dignidade das crianças, adolescentes e jovens, dos afrodescendentes, desempregados, dos idosos sem autonomia, das famílias e da mulher pode ser reconhecida. A violência pode diminuir, por meio de ações educacionais e pastorais, de políticas públicas e de segurança.

A história da cidade é rica em modelos que apontam o caminho do discipulado e da missão. Catequistas, padres, religiosos, consagrados, bispos, enfim, muitos sujeitos da evangelização, assopram a brasa da fé, da caridade e da esperança, da paixão por Jesus Cristo e seu Reino. Nessa caminhada, muitos se dedicaram e se dedicam às pastorais sociais, como os apóstolos leigos que atuam no mundo do trabalho, da política, da comunicação e da educação.

A Igreja em São Paulo está a serviço da construção da Nova Jerusalém, “da realização dessa Cidade Santa, mediante a proclamação e a vivência da Palavra, a celebração da liturgia, a comunhão fraterna e o serviço, especialmente aos mais pobres e aos que mais sofrem” (DAp  516).

 

2.2. Testemunhas de Deus na cidade

A metrópole nos desafia a descobrir como anunciar o Evangelho de modo dinâmico e vivo, não só para os batizados, mas a todos os que buscam, na transcendência, o sentido da vida.

 

2.2.1. Santos e beatificados que viveram nesta cidade

A Arquidiocese tem em sua história uma multidão de testemunhas da santidade para a qual todos nós somos chamados. Se perguntarmos em cada comunidade, logo encontraremos uma multidão daqueles que identificaram e identificam suas vidas com a vida de Jesus. De certo modo, devemos a eles a nossa fé. E temos a responsabilidade de seguir seus passos no caminho de Jesus. Dessa multidão, a Igreja já reconheceu oficialmente como modelos de santidade os beatos padres Anchieta e Mariano, e os santos Paulina e Frei Galvão. Junto aos padroeiros das nossas comunidades, eles nos animam a seguir seu exemplo de discípulos-missionários de Jesus Cristo.

 

a) Beato Padre José de Anchieta[2]

Nas pegadas de Anchieta, descobrimos como ser discípulos-missionários, catequistas, educadores e mensageiros da paz, inteiramente dedicados a Cristo e aos irmãos. Anchieta perseverou na missão evangelizadora, apesar dos sérios problemas de doenças nos ossos, que sempre o fizeram sofrer, ainda mais quando devia empreender longas caminhadas missionárias.

Criativo e empolgado pela missão, usava linguagem simples, teatro e poesia na evangelização e na catequese, porque assim era mais fácil orientar as pessoas. Anchieta inspirava-se no Evangelho e na tradição da Igreja, para fazer sua ação missionária num contexto de múltiplas práticas de violência. Ele soube enfrentar os desafios de sua época sem negar o amor e o testemunho de Jesus Cristo.

 

b) Beato Padre Mariano de La Mata Aparício[3]

Do Beato Mariano, aprendemos que o discípulo-missionário é chamado a ser amável, atencioso, caloroso e acolhedor, em todas as circunstâncias. Ele contagiava com o conforto de sua presença amiga. Era a alegria das famílias, crianças e jovens. Às pessoas que tiveram a graça de encontrá-lo testemunhava a alegria e a esperança dos verdadeiros discípulos-missionários.

Homem de fé, oração, intenso amor à Eucaristia e devoção à Senhora da Consolação, era de caráter reto, irrepreensível e conciliador, disponível para atender, especialmente os mais humildes, para administrar a Eucaristia e ouvir as pessoas em confissão. Dedicava grande cuidado aos pobres. Aos doentes, não deixava faltar o sacramento da Unção dos Enfermos e o conforto de sua presença e apoio espiritual.

 

c) Santo Antônio de Santana Galvão[4]

No testemunho de Frei Galvão, descobrimos que o fazer cotidiano não nos afasta de Deus, ao contrário, nos aproxima dele, se tivermos uma vida de oração e de meditação da Palavra de Deus. Com Frei Galvão, aprendemos a dedicação ao trabalho, à oração, ao sacramento da Penitência, e a devoção filial à Mãe de Jesus.

A intimidade com Jesus Cristo o impulsionava a ir ao encontro das pessoas até os pontos mais distantes da cidade, para orientar, anunciar, consolar e administrar os sacramentos, especialmente da Penitência. Sua marca missionária fundava-se na prática da caridade ao próximo, pela atenção aos pobres e aos doentes que sempre o procuravam.

A Palavra ilumina a vida, e a vida ilumina a Palavra. O santo utilizava os acontecimentos do momento para evangelizar, como, por exemplo, uma mulher que dá à luz, um rapaz com cólica renal, a construção civil, as “pílulas de papel”...

 

c) Santa Madre Paulina[5]

De Madre Paulina, aprendemos o entusiasmo pela evangelização. Dizia ela: - “Ide adiante! Que Jesus seja conhecido, amado e adorado por todos e em todo o mundo.” Seu lema era “sensibilidade para perceber e disponibilidade para servir, especialmente aos irmãos mais necessitados”. Durante a vida, expressou sua experiência de Deus no serviço aos pobres e enfermos, trabalhou em hospitais, cuidou de todos os tipos de doentes.

Madre Paulina nos desperta para a necessidade de proteger e defender a vida ameaçada, como sinal de esperança para a sociedade. A construção do Reino de Deus se faz na fidelidade ao projeto divino, em comunhão com a Igreja e na sensibilidade para ver e atender os clamores do povo sofrido.

Para a cidade de São Paulo, Santa Madre Paulina aparece como um modelo de mulher e da voz das mulheres, numa realidade em que a questão de gênero é crucial ao processo de evangelização.

 

2.2.2. O Apóstolo Paulo, Patrono da Arquidiocese

A Arquidiocese encontra em seu Padroeiro, celebrado no dia 25 de janeiro, inspiração para assumir com renovado ardor a missão de anunciar Jesus Cristo. São Paulo se deixou cativar por Jesus e se entregou intensamente ao anúncio do Evangelho. Ele nos contagia com sua prática evangelizadora e missionária.

Com São Paulo, aprendemos que “a fé vem da pregação, e a pregação é pela Palavra de Cristo”. (Rm 10,17).  O Apóstolo entendeu que o Senhor veio para todos, que todas as pessoas têm o direito de conhecer Jesus Cristo, pois “Cristo é tudo em todos” (Cl 3,11). Pelo trabalho missionário de Paulo, “a Palavra de Deus cresceu e se confirmou poderosamente” (At 19,20), até abraçar o espaço urbano: “No sábado seguinte, quase toda a cidade reuniu-se para ouvir a Palavra de Deus” (At 13,44).

O impulso de Paulo, “Ai de mim se não pregar o Evangelho!” (1Cor 9,16), estimula a Arquidiocese a enfrentar os desafios da missão na cidade, com destemor e responsabilidade. O discípulo-missionário é um caminhante, que vai ao encontro dos que estão “distantes” ouafastados” da comunidade de fé.

Paulo foi criativo e cuidadoso, utilizou todos os meios de sua época na dinâmica de evangelizar. Pastoral na cidade não significa um conjunto de reuniões, mas ações animadas pela Palavra de Deus. Como Paulo, temos hoje que escutar o que o Espírito diz à Igreja e ser inventivos no anúncio e na construção do Reino.

Sem  o espírito e a ação missionária  que nascem do encontro com o Senhor, a pregação se torna vazia  e o empenho missionário cansativo. Esse encontro se realiza na Palavra de Deus, na oração, na liturgia, na caridade, especialmente aos mais pobres e doentes.

 

“O Apóstolo São Paulo é um exemplo muito inspirador para todos nós. Como habitantes da cidade de São Paulo e membros desta Igreja paulistana, nós precisamos conhecer melhor São Paulo. Discípulo dedicado e missionário ardoroso de Jesus Cristo, São Paulo poderá inspirar muito nossa Igreja no cumprimento de sua missão nesta cidade que lhe é dedicada. Temos muito a aprender de seu encontro pessoal com Jesus Cristo, sua fé inabalável e seu amor a Jesus Cristo, seu zelo e atitude missionária e seu ardor em levar a todos o nome de Jesus Cristo: - ‘Sei em quem acreditei!’ (2Timóteo 1,12.) A Igreja, através da Conferência de Aparecida, nos incentiva a sermos, de maneira renovada, discípulos e missionários de Jesus Cristo no nosso tempo. Paulo, evangelizador vigoroso e apaixonado por Jesus Cristo, inspirou a muitos no passado e pode inspirar-nos, também hoje.” (D. Odilo P. Scherer.)

 

2.2.3. Centenário da Arquidiocese: lição de fé e missão

Plantada em meados do século XVI, no planalto de Piratininga, em torno de uma missão dos padres jesuítas, a Igreja em São Paulo foi elevada a diocese por Bento XIV, no dia 6 de dezembro de 1745. Em 7 de junho de 1908, foi elevada à condição de Arquidiocese e Sede Metropolitana, pelo Papa São Pio X.

O centenário da Arquidiocese foi uma ocasião favorável para recordar os sacerdotes que serviram, animaram e conduziram o povo na fé, esperança e caridade; os missionários que, desde o início da fundação de São Paulo, doaram sua vida ao anúncio do Evangelho à cidade; todas as pessoas que se dedicaram às comunidades, que atenderam aos doentes e pobres e realizaram um sem-número de iniciativas culturais, de caridade, solidariedade social e promoção da dignidade humana.

Em seu primeiro centenário de existência, a Arquidiocese foi servida por sete arcebispos: D. Duarte Leopoldo e Silva (1907-1938); D. José Gaspar D’Afonseca e Silva (1939-1943); os Cardeais D. Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta (1944-1964), D. Agnelo Rossi (1964-1970), D. Paulo Evaristo Arns (1970-1998) e D. Cláudio Hummes (1998-2006). Cada um deles marcou São Paulo pela caridade pastoral e testemunho de compromisso missionário.

Dom Odilo Pedro Scherer, o 7° Arcebispo nessa seqüência, designado por Bento XVI, assumiu o pastoreio da Arquidiocese de São Paulo em 29 de abril de 2007. Confiante na Providência Divina, e grato pela missão que a Igreja lhe confiou, colocou-se à disposição de todos, para servi-los na medida de suas forças:

 

“Já os trago a todos no meu coração. Saúdo, com respeito, as autoridades e todas as pessoas que têm responsabilidades públicas; abraço os padres e diáconos, religiosas e religiosos, as lideranças do laicato e todo o querido povo das comunidades da Arquidiocese. Saúdo com carinho os doentes, os pobres e todos aqueles que carregam uma pesada cruz de sofrimentos; peço que Deus os conforte e assista” (Mensagem ao povo de São Paulo, por ocasião de sua nomeação, no dia 21 de março de 2007).

 

O lema do centenário, “Deus habita esta cidade!” (Sl 47,9), mostra a convicção de que Deus ama seus habitantes. É um anúncio cheio de esperança de que não estamos sozinhos diante dos problemas e angústias do dia-a-dia da cidade. É um compromisso de anunciar a presença e a ação de Deus nesta cidade e na vida de cada pessoa. Este compromisso se realiza, quando testemunhamos a comunhão eclesial, a prática das virtudes, especialmente da fé, esperança e caridade, o respeito por toda pessoa e o empenho, com os demais habitantes da cidade, na edificação de uma sociedade justa e solidária.

A cidade de São Paulo recebeu a visita de dois Papas, com o objetivo de nos estimular na prática da caridade e na evangelização. Muitos ainda se recordam das palavras de João Paulo II aos trabalhadores, no Estádio do Morumbi, da celebração no Campo de Marte e do encontro com as pessoas de vida consagrada. Finalmente, Bento XVI alegrou profundamente a cidade, quando mostrou a força missionária da Igreja Particular, na canonização de Frei Galvão, e o dinamismo desta Igreja, para o futuro, no encontro com os jovens no Pacaembu. Outro ponto significativo foi seu encontro com os Bispos na Catedral na Sé.

A história da Arquidiocese testemunha uma tradição de serviço e missão em todos os campos da vida. Além do serviço religioso, ela sempre atuou na promoção da dignidade humana, na educação, na saúde e na assistência social. Articulada com várias organizações sociais e com o poder público, sempre defendeu e promoveu o bem comum. A Igreja sempre esteve junto com o povo, pela prática da caridade e pelo anúncio da Palavra de Deus. E nisto consiste a ação de discípulos-missionários. É uma Igreja que acolhe, orienta e aponta para o encontro com Jesus.

 

3. O campo da missão e seus desafios

A cidade de São Paulo, onde se encontra a Arquidiocese, possui uma população de onze milhões de habitantes; se considerarmos o conjunto da região metropolitana, são até dezenove milhões.

A Arquidiocese ocupa mais de um terço do território e atende a mais do que a metade da população do Município. (Além da Arquidiocese, as Dioceses de Campo Limpo, Santo Amaro e São Miguel Paulista estão no território da cidade.) Em números absolutos, a Arquidiocese abrange uma população de cerca de 5.277.241 habitantes, com densidade demográfica de oito mil e trezentos habitantes por quilômetro quadrado (8.300 hab/km²). Além disso, atende a uma multidão de transeuntes, provenientes de outras cidades e Estados, que necessitam de acolhimento e de orientação religiosa. As igrejas centrais têm que estar abertas para atender a essa população.

Vários indicadores sociais, tais como o Índice de Desenvolvimento Paulista (IDPS), a Pesquisa de Condições de Vida (PCV), o Índice de Vulnerabilidade Juvenil (IVJ), mapas e instrumentos de avaliação da realidade, permitem o conhecimento da realidade da cidade. É necessário interpretar os dados que oferecem, com o olhar de discípulos-missionários de Jesus Cristo. (Cf. sites www.seade.gov.br; www.pnud.org.br; www.unicef.org.br; www.ibge.gov.br; www.ipea.gov.br)

Neste Plano, não se pretende fazer uma análise científica do contexto social no qual se realiza nossa missão. Seu objetivo é evidenciar como os fenômenos sociais afetam a vida do povo, no sentido religioso e ético. Nosso povo busca.

 

“[...] infatigavelmente o rosto de Deus e, no entanto, deve fazê-lo, agora, desafiado por novas linguagens do domínio técnico, que nem sempre revelam, mas que também ocultam o sentido divino da vida humana redimida em Cristo. [...] Nesse novo contexto sociocultural, a realidade para o ser humano se tornou cada vez mais sem brilho e complexa, ensinando-nos a olhá-la com mais humildade” (DAp 35-36; DGAE 14).

 

A cidade de São Paulo possui um acervo cultural constituído pelas melhores universidades do País, bibliotecas, teatros, centros de exposições. Nela está situado um dos maiores mercados financeiros da América Latina, com seus bancos, os grandes escritórios de multinacionais, um parque industrial invejável, extensas redes de serviços. No aspecto político, reúne grande diversidade de partidos políticos, movimentos sociais, sindicatos e organizações não-governamentais de diferentes matrizes ideológicas em jogo no processo democrático.

Apesar da pujança da cidade, os indicadores sociais revelam a coexistência da riqueza e da pobreza. O Mapa da Vulnerabilidade Social da População da cidade de São Paulo, elaborado pela Prefeitura Municipal, aponta os distritos periféricos e os bolsões de miséria como os espaços de maior exclusão social, sem equipamentos básicos de assistência e outros serviços públicos. O dia-a-dia de miséria em que vive grande parcela da população fere os princípios do Evangelho.

Indicadores sociais apontam as condições para o aumento da violência urbana. O medo da violência e o medo de denunciá-la favorecem o comércio de equipamentos de segurança, a construção de muros, grades, o uso de portões eletrônicos, os serviços de seguranças particulares e o acesso bancário pela Internet, fatores que aumentam o isolamento social. Em algumas regiões, o Estado está praticamente ausente, e isto permite a proliferação do crime organizado.

Pessoas oriundas de diversos Estados do Brasil são atraídas pelas promessas do mundo urbano e de sua riqueza. O crescimento imobiliário e populacional desordenado, sem um sistema ético de planejamento urbano, leva São Paulo a enfrentar grande dificuldade no escoamento do trânsito, que se torna cada dia mais lento. 

O individualismo, próprio dos centros urbanos, não impede, porém, a organização e as lutas da população pela promoção dos direitos humanos, respeito ao meio ambiente, moradia digna e acesso a melhores serviços de saúde e lazer. Vários grupos, associações e movimentos têm conquistado qualidade de vida e direitos sociais.

São Paulo, por ser pólo da economia, cultura e poder político, centraliza e irradia forças e mobilizações em prol da justiça, da fraternidade e da paz. O Grito dos Excluídos Latino-Americanos, por exemplo, manifesta uma consciência planetária e a percepção de que fazemos parte de uma única família universal.

Com os esforços da sociedade civil e do Estado, as agências de pesquisa têm constatado uma diminuição das mazelas sociais no Brasil e na cidade de São Paulo, nas últimas décadas. Acredita-se que essa melhora se deva, também, à atuação das pastorais sociais e de movimentos e organizações, muitas delas ligadas à Igreja, que oferecem alternativas econômicas e de lazer à população, cursos profissionalizantes e centros de convivência para jovens, famílias, mulheres, crianças e idosos. As comunidades preocupam-se continuamente com os pobres e doentes, e lhes prestam serviços de caridade.

Num rápido olhar sobre a cidade de São Paulo, percebem-se nela sinais de vida e de morte. Cabe à Igreja, no seu processo de evangelização, fortalecer os sinais de vida, porque ela crê que Deus está presente nesta cidade e ama o seu povo.

 

“Cremos ser importante que Deus habite esta cidade. É bom e faz bem para todos os seus habitantes. Que ninguém tenha medo de Deus! Ele nada tira do homem daquilo que é bom, belo e nobre. No entanto, se olharmos ao nosso redor com realismo, poderemos constatar que há muitas situações que falam mais da ausência de Deus do que da sua presença. Onde acontece a violência e o desrespeito à vida das pessoas, onde o egoísmo impera e os cidadãos mais fracos e indefesos são esmagados, onde existe o fechamento diante da dor e dos sofrimentos do próximo, ali a presença de Deus está sendo negada. A pobreza e a miséria humilhante de tantos habitantes desta cidade certamente não falam da glória de Deus. E também depõem contra a glória de Deus as injustiças sociais persistentes, a violência e os fatos de desrespeito à dignidade e à vida da pessoa humana, bem como o abandono em que se encontram tantos filhos e filhas de Deus. O compromisso da Igreja e de todos os seus membros e organizações com São Paulo é o de ajudar esta cidade a ser morada digna de Deus; e será morada tanto mais digna de Deus, quanto mais for respeitosa da obra de Deus manifestada em toda a natureza e nos seres humanos; quanto mais for justa e solidária com todos os filhos e filhas de Deus que nela habitam. É, pois, missão de pessoas que crêem em Deus, de nossas Igrejas, paróquias, comunidades e demais organizações, bem como de nossas obras sociais, educacionais e culturais, serem sinais da presença amorosa de Deus com o povo de São Paulo. E a Igreja, em São Paulo, confia no dinamismo de seus membros, os leigos, presentes em todo o tecido social, contando com aqueles que têm liderança e desempenham missões de especial responsabilidade social. Deus, que habita esta cidade, convida todos a serem colaboradores generosos na construção de uma cidade boa para todos.” (D. Odilo Pedro Scherer.)

 

As transformações tecnológicas e científicas em escala mundial têm trazido conseqüências para todos os setores da vida humana e produzido impactos na cultura, na economia, na política, na educação, no esporte, na arte, na religião e na ética. Esse movimento obscurece a percepção da presença de Deus e torna “opaco, também, o desígnio amoroso e paternal de uma vida digna para todos os seres humanos” (DAp 35). Perder o sentido de Deus é também perder o sentido da vida.

O olhar do discípulo, porém, contempla a cidade para além do mercado, da exploração, da sedução do consumo, da coisificação das relações, da desvalorização do corpo e da vida. Nessa relação de vida e de morte, o discípulo-missionário consegue perceber e testemunhar a presença da graça de Deus, para que a cidade possa reencontrar o sentido de Deus e o valor da vida.

 

3.1. A cidade com sua dinâmica

A cidade tem uma lógica própria. Nela, a Igreja precisa encontrar seus interlocutores, seus espaços e momentos adequados. Essa atitude requer critérios estabelecidos de acordo com a Palavra de Deus, para que as diferentes vozes e forças urbanas sejam direcionadas ao bem da comunidade.

Para fortalecer os caminhos da evangelização e responder com a Palavra de Deus aos seus apelos, é necessário tocar na cidade de São Paulo, compreender o quanto possível sua vida e os contrastes presentes no seu cotidiano, a dinâmica dos nervos urbanos, sua realidade plural e em constante mudança, a diversidade das vozes que nela ecoam, dialogam e interagem.

Na cidade, luzes e sombras se misturam no universo da mídia, nas estratégias e códigos da linguagem local, no comércio, no trânsito, nas organizações de representação popular, nas empresas nacionais e internacionais, nos interesses políticos, na segurança pública, nas religiões, na cultura popular, na diversidade cultural, nos territórios em que “tribos” urbanas se confrontam e se ajustam, no mundo do trabalho, da moradia, da saúde e da educação.

A lógica do consumo tende a excluir os pobres, deficientes, doentes e idosos, que acabam perdendo seu lugar social, pois são avaliados somente pela utilidade. Enfatiza-se o consumo como uma aspiração humana, fortalecem-se o pragmatismo e o narcisismo (cf. DAp 50-51). Diante disso, o que está em jogo na dinâmica da cidade é a deterioração ou a construção do tecido social (cf. DAp 78).

Ao lado das oportunidades de vida melhor, em São Paulo multiplicam-se situações de exclusão e violência, radicadas numa compreensão materialista das relações humanas e do mundo, que rejeita a ética da vida e do amor. Nesse contexto, o medo, o isolamento, a insegurança e a repressão são formas comuns de se reagir aos desafios da violência, da criminalidade e da desigualdade social.

Se aqui se destrói a vida, muitas forças emergem a favor da vida, nas muitas práticas de solidariedade e caridade que permeiam o cotidiano. Em meio às múltiplas vozes e forças atuantes, a Igreja apresenta à cidade uma proposta de vida na qual as pessoas se realizem e se sintam realizadas, porque seguem Jesus Ressuscitado, Caminho, Verdade e Vida. Isto é para a Igreja uma exigência.

O discípulo-missionário está seguro de que “só quem reconhece a Deus, conhece a realidade e pode responder a ela de modo adequado e realmente humano” (DAp 42). Desse modo, mergulha na Palavra, na realidade da cidade e na comunidade de fé, para ter condições de ser profeta, sacerdote e pastor, em meio às “complexas transformações socioeconômicas, culturais, políticas e religiosas que fazem impacto em todas as dimensões da  vida” (DAp 511). Conviver com as diferenças, sem perder a identidade cristã e católica, é um dos desafios que deve enfrentar.

 

3.2. A cultura com suas expressões urbanas

Uma das marcas da cultura urbana, que se consolidou em São Paulo nas últimas décadas, é a sensação de liberdade e de poder. A cidade reforça a autonomia do indivíduo em relação aos grupos naturais, família, vizinhança, raça, religião, etnia. Cada pessoa pode isolar-se e viver o seu mundo. Para os jovens, isso significa libertação da fiscalização permanente. O anonimato e a solidão levam muitos a buscar comunidades, grupos de referência e associações que lhes permitam estabelecer relações afetivas satisfatórias.

No movimento urbano, o distante e o próximo se encontram e desencontram. O futuro é incerto e, portanto, valem o aqui e agora. Sempre é tempo de tudo e para tudo. Cada pessoa pertence, simultaneamente, aos espaços da moradia, do trabalho, da prática religiosa, do lazer, do estudo, e a espaços virtuais. Envolvido pelo fenômeno da condensação do tempo e do espaço, o povo, especialmente os jovens, agarra-se ao presente, como se o passado não fosse importante.

Redes de TVs, rádios, jornais, centros de Internet, agências de notícias e telefonia, jornalistas e repórteres, em permanente plantão, transformam os fatos em linguagem comunicativa. Penetram em todos os ambientes, criam e destroem sonhos de se tornar celebridade, cantor, artista, jogador de futebol, modelo, estimulam o fascínio do dinheiro, do poder e da fama.

Espaço do grande mercado e das exposições, em São Paulo tudo pode ser visto e consumido, para satisfação de desejos, necessidades e prazeres. Podemos fazer compras a qualquer hora, até de nossas casas. Todos nós conhecemos supermercados que funcionam em tempo integral. Sempre alguém oferece alguma coisa, religião, cultura, comestíveis, carros, casas, saúde, música, sexo, sorte. As avenidas expõem os carros e as classes sociais. Multiplicam-se as oportunidades de entretenimento, as manifestações culturais, as bandas, os centros de lazer, museus, teatros, restaurantes, casas noturnas e baladas. Predominam a cultura do corpo, proliferam as academias, centros de estética e cirurgias plásticas.

Por uma perspectiva virtual, tudo se transforma em espetáculo e ganha uma aparência de positividade, fama e sucesso. Até mesmo as práticas de violência, os acontecimentos familiares, a destruição da vida, as atitudes antiéticas e criminosas. É aí que o marketing investe na imagem, seduz e gera consumidores. Na política, por exemplo, ganha a eleição quem tem um excelente marqueteiro. A pergunta que fazemos é se assim está correto, sobretudo quando se trata da religião, dos valores morais e culturais.

A ética que prevalece é a que obedece à lógica do mercado e do lucro. A política, a religião, as práticas de solidariedade, o conhecimento, a ciência se tornam mercadorias. O indivíduo se julga com direito total à felicidade, como bem privado. Os bens da cidade devem estar a seu serviço. As uniões passageiras, a separação entre casamento e procriação, as parcerias conjugais do mesmo sexo debilitam as relações humanas e familiares, violentam o sacramento do matrimônio. O aborto é, hoje, questão do mercado e do marketing, que pretendem induzir homens e mulheres a terem esse desejo e a praticá-lo.

Podemos afirmar que a cultura de São Paulo “é híbrida, dinâmica e mutável, pois amalgama múltiplas formas de valores e estilos de vida e afeta toda a coletividade” (DAp 58). A cidade permite multiplicar as oportunidades e possibilidades de contato com outros modos de vida, rostos, etnias, ideologias, línguas, religiões, expressões lingüísticas, festas e expressões folclóricas.

As mudanças culturais trouxeram alguns valores, como o respeito à consciência, o desejo de encontrar o sentido da vida e da transcendência, ainda mais após os fracassos das ideologias dominantes. A “ênfase na apreciação da pessoa abre novos horizontes, onde a tradição cristã adquire renovado valor, sobretudo quando a pessoa se reconhece no Verbo Encarnado” (DAp 52), em sua condição de pobreza e humildade.

 

3.3. As dimensões política, econômica e social

Centro produtor de riqueza e pobreza, dotada de alto poder de atração, inclusão e exclusão, a cidade exerce influência nacional e internacional na política e na economia. Nela, convivem diferentes elites econômicas, sociais e políticas, a classe média com seus diferentes níveis, e uma multidão de pobres.

São Paulo influencia o mundo da economia globalizada e é por ele influenciada. A globalização, fenômeno complexo e irreversível, tem como uma de suas tendências o privilégio do lucro e da concentração “dos recursos físicos e monetários, mas, sobretudo, da informação e dos recursos humanos, o que produz a exclusão de todos aqueles não suficientemente capacitados e informados, aumentando as desigualdades que marcam tristemente o nosso continente e que mantêm na pobreza uma multidão de pessoas” (DAp 62). A economia globalizada tem seus ganhos, quando orientada por princípios éticos e colocada a serviço da pessoa humana.

É inquestionável a deterioração da política na sociedade brasileira, enfraquecida pela corrupção e pela dominação dos grandes grupos econômicos. Às vezes, temos a sensação de que o Estado foi assaltado por grupos antiéticos, que transformam a política em balcões de negócios, em detrimento da vida. A cidade reproduz os limites e os avanços da política brasileira.

As políticas sociais, na cidade, apesar de contribuírem para ampliar as oportunidades e integrar os indivíduos, não conseguem romper as barreiras da desigualdade social e da miséria e suas implicações. Uma das causas é o desvio dos recursos destinados às políticas sociais, cujos benefícios nem sempre chegam aos mais necessitados na cidade, e sim a uma “elite da pobreza”, a políticos, empresários e lideranças que revertem a seu favor as necessidades do povo.

Essa dinâmica levou os cidadãos ao desencantamento e à “diminuição da confiança nos políticos, nas instituições públicas e nos três poderes do Estado. Em contrapartida, surgiram novos sinais de esperança e de empenho político, como muitas organizações alternativas não-governamentais [...], movimentos sociais sem vinculação partidária, para defender, com energia, os direitos individuais e para expressar a esperança de outro mundo possível” (DGAE 33).

O sucateamento da política tem forçado a sociedade a uma atitude de maior protagonismo e fez emergir atores sociais a favor da democracia participativa (cf. DAp 75). São Paulo tem potencial político para uma gestão mais localizada e eficiente, que administre melhor a relação entre o mercado e o bem-estar dos cidadãos. O povo e as organizações paulistanas cobram do poder local justiça social, políticas sociais que respondam às necessidades da população, assim como credibilidade e confiança na administração dos bens públicos, respeito à cidadania e ao contribuinte.