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10/07/2007

 

Missão continental – Igreja em estado de missão (1)

 

Nos dias 9 a 14 de julho realiza-se em Havana, Cuba, a assembléia geral do Conselho Episcopal Latino- Americano (Celam). Na pauta, a eleição dos membros da nova presidência, dos encarregados dos diversos departamentos e a realização da missão continental. A Conferência de Aparecida aprovou de forma unânime a proposta e deu algumas indicações gerais para a realização da missão continental; mas agora é necessário ir além e definir competências, metodologias, subsídios e vários outros encaminhamentos indispensáveis para viabilizar a missão na prática. Com grande probabilidade, caberá às próprias conferências episcopais a organização e a promoção da iniciativa nas Igrejas locais de cada país; o Celam ficaria com a supervisão, subsídios e a organização da solidariedade eclesial ampla para a ação missionária que se pretende realizar. Em breve, conheceremos as definições. Qual poderia ser a configuração dessa missão continental? Creio que, acima de tudo, deva consistir na retomada de uma decidida postura missionária da Igreja, com todos os seus membros e organizações. A Igreja é missionária por sua natureza e essência e deixaria de ser fiel a Jesus Cristo, seu divino fundador, se não fosse missionária também na prática. Ela nunca pode considerar concluído o encargo recebido de Jesus, através dos apóstolos: "Ide, pois, fazei discípulos entre todas as nações (...), ensinai-as a observar tudo o que vos tenho ordenado" (Mt 28, 19-20). Não podemos contentar-nos apenas em cultivar e manter aquilo que já foi feito e construído no passado; a Igreja precisa colocar- se "em estado permanente de missão", propondo sempre de novo às pessoas e à sociedade o anúncio do Evangelho de Jesus Cristo; de muitas maneiras e com a participação de todos os seus membros. Não foi isso que a Igreja sempre fez, bem ou mal, ao longo dos 500 anos de sua presença na América? Certamente, e hoje é preciso fazê-lo ainda, de forma renovada. Os tempos e as circunstâncias são outros e a proposta da missão continental feita em Aparecida responde a uma necessidade bem atual. Grandes mudanças culturais, sociais e religiosas aconteceram recentemente, levando as pessoas para atitudes novas também em relação à religião e à pertença à Igreja Católica. Não podemos mais partir do pressuposto de que todos são católicos e seguem as orientações da nossa Igreja; há muitas vozes e grupos diferentes, que chamam a atenção sobre si mesmos e se propõem para serem ouvidos e seguidos; além disso, as pessoas têm hoje maior consciência da própria liberdade e autonomia e, por isso, precisam ser bem mais motivadas para continuarem a seguir a fé católica. Por outro lado, também não podemos supor que a evangelização já foi suficientemente promovida, e os princípios cristãos já estão presentes na cultura e nos códigos da convivência humana. Não basta ter evangelizado no passado: cada geração precisa ser evangelizada novamente, até mesmo mais de uma vez durante a vida. Na natureza, aquilo que não é cultivado com zelo e atenção tende a se deteriorar e desaparecer; não é diferente no campo da fé e da vida eclesial. De resto, a "descristianização" é um fato facilmente constatável nas tendências culturais que se afirmam e nos modos de convivência e organização social. Nossos povos, embora profundamente religiosos, certamente nunca receberam uma evangelização que se possa considerar suficiente; mesmo assim, no passado a fé católica e a pertença eclesial passavam tranqüilamente de uma geração para outra; agora, isso já não é tão garantido. Por vários fatores, nosso tempo é marcado por rupturas entre as gerações e constatamos facilmente que casais católicos nem sempre continuam a batizar os filhos, nem lhes ensinam em família os primeiros elementos da fé, da vivência cristã e da participação na comunidade eclesial. Essa descontinuidade na transmissão da fé é verificável até mesmo nas nossas comunidades: muitos são batizados em nossas paróquias e igrejas e, depois, nunca mais são alcançados por nós, nem são evangelizados. Eis, portanto, que se faz necessária uma ação missionária consciente e intensa para ir ao encontro das pessoas e para lhes propor, de muitas maneiras, a mensagem do Evangelho. É aquilo que se pretende fazer com a missão continental. A motivação básica é esta: fomos enviados por Jesus Cristo e temos algo de importante e belo a propor às pessoas e ao mundo: o Evangelho do Reino de Deus, que também hoje pode dar sentido novo à vida das pessoas e contribuir para que nosso povo viva melhor. Jesus Cristo continua sendo "caminho, verdade e vida" para a humanidade, e isso precisa ser dito de forma nova e convincente. Tornaremos sobre esse assunto na próxima semana.

 

 

Card. Odilo P. Scherer

Arcebispo de S.Paulo

Jornal O São Paulo - 10/07/2007

 

 

 

 

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