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30/09/2008

 

Sínodo dos Bispos Parte 2:
 

Deus falou-nos por seu Filho

 

Em Roma está acontecendo a Assembléia Geral do Sínodo dos Bispos, sobre o tema: “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”. Afinal, que entendemos quando dizemos “Palavra de Deus”? Onde está a Palavra de Deus? Somente na Bíblia?

 

Antes de tudo, a própria natureza e o conjunto dos seres criados “falam” de Deus e manifestam seu desígnio. O mundo criado é um belíssimo poema que narra a glória de Deus (cf  Sl 18,1). Olhando e admirando a beleza das criaturas, sua perfeição e sua ordem, perscrutando as leis que regem o universo e o dinamismo da vida, nós podemos “ler” e “ouvir” aquilo que Deus nos diz através delas.

 

Além disso, a Igreja afirma com firme fé que Deus se manifestou aos homens, de muitos modos, ao longo da história, e não ficou fechado no seu divino silêncio nem isolado no céu, mas entrou em diálogo com a humanidade; e o homem não é “surdo”, mas é capaz de perceber e acolher esta manifestação de Deus, que se comunica com ele. O Concílio Vaticano II usou esta bela expressão: “Deus fala aos homens como a amigos” (DV 2). Amigos se procuram e se entendem... Deus falou no passado e continua a falar também hoje a nós, com amizade.

 

Mas Deus falou-nos, de maneira muito clara, através de Jesus Cristo, seu Filho, enviado a este mundo para salvar-nos. A Carta aos Hebreus, num trecho que lemos na missa do dia de Natal, começa com esta afirmação: “Muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais pelos profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por seu Filho, a quem fez herdeiro de todas as coisas e por meio do qual fez também o universo” (Hb 1,1-2). São João, no início do seu Evangelho, diz que a Palavra eterna de Deus se fez carne e habitou no meio de nós (cf  Jo 1,14). Para nós, portanto, a Palavra de Deus, por excelência, é o próprio Jesus Cristo. E os Evangelhos são o centro da Bíblia.

 

A Palavra de Deus tem a autoridade de Deus; por isso, dizemos que ela é inspirada pelo Espírito Santo e nos comunica aquilo que é importante para a nossa salvação. A Igreja Católica ensina que a Palavra passou a nós através da Bíblia e também através da Tradição da Igreja, comunidade de fé. A Liturgia, a pregação, a catequese e a vida mística também comunicam, junto com a Bíblia, a Palavra de Deus a nós. De fato, a Palavra da salvação não é palavra morta ou artigo de museu, mas continua viva na comunidade de fé, a Igreja de Cristo.

 

Como acolhemos a Palavra de Deus? Evidentemente, a Escritura Sagrada pode ser lida e estudada de muitas maneiras; evidentemente, ela foi escrita numa época determinada, por isso, ela absorveu a linguagem da época e do povo onde ela surgiu. Deus, por assim dizer, encarnou-se numa realidade; portanto, para compreender a Bíblia é preciso compreender aquelas realidades que fazem parte do mundo da Bíblia. Por isso, os estudos bíblicos são importantes e requerem o conhecimento das línguas, da história, da cultura e do modo de vida daquele povos onde ela foi ambientada. Mas isso ainda não é suficiente para compreender a Palavra de Deus, que vem a nós através da Bíblia.

 

Para ser bem compreendida, a Bíblia precisa ser lida e estudada no ambiente da fé da Igreja, e não apenas como um texto de literatura. Ela é o livro da comunidade de fé e de suas experiências com Deus. Quando é lida com fé, o mesmo Espírito de Deus que inspirou o autor e o texto sagrado também assiste e orienta o leitor e estudioso, para que compreendam aquilo que Deus nos fala através do texto. Por isso, a Igreja ensina que o melhor lugar para proclamar e acolher a Palavra de Deus é a comunidade de fé; e quem interpreta a Bíblia fora da fé da Igreja, acaba entrando por caminhos errados.

 

A Bíblia é um livro extenso e complexo, com textos muito diversificados quanto ao estilo e o conteúdo. É preciso encontrar um critério unificador para compreender a Palavra de Deus que nos vem através dela. E esse critério é Jesus Cristo, que está no centro da Bíblia e revela a plenitude do seu sentido. Já ensinavam os antigos Pais da Igreja: o Novo Testamento está escondido no Antigo; e o Antigo Testamento torna-se claro no Novo. Jesus Cristo manifesta-nos a plenitude da verdade de Deus.

 

Como muitas outras reuniões eclesiais, também o Sínodo é, ainda hoje, uma ocasião para acolher a Palavra de Deus e para fazê-la ecoar no mundo, para que produza abundantes frutos de vida.

 

Card. Odilo P. Scherer

Arcebispo de S.Paulo

06/10/2008

 

  

 

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