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Dom Odilo Pedro Scherer - Arcebispo da Arquidiocese de São Paulo

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13/10/2008

 

Entrevista sobre o Sínodo

 

 

- Os trabalhos do Sínodo sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja começaram há uma semana. O que se pode dizer dessa 1a. semana de trabalhos?

 

R. Foi uma semana de intensos trabalhos. Naturalmente, escutamos muito mais do que falamos, uma vez que a maior parte do tempo foi dedicada às intervenções individuais dos Padres sinodais. Geralmente foram depoimentos ou observações muito ricas, que nos permitiram ter uma certa idéia sobre como vão as coisas na Igreja, no mundo inteiro, em relação ao anúncio, à acolhida e à vivência da Palavra de Deus.

 

- Como está organizada a assembléia sinodal?

 

R. O Sínodo é um organismo consultivo da Igreja e deve prestar sua ajuda ao Papa nas questões que dizem respeito ao bem de toda a Igreja. Desta 12a. assembléia geral participam 253 membros, a maioria, bispos; mas também padres, religiosos/as e leigos. Além das sessões conjuntas, há o trabalho dos círculos menores, para elaborar as propostas que serão votadas, no final, e encaminhadas ao Papa; na conclusão da assembléia sinodal haverá uma mensagem da própria assembléia. O documento final, ou Exortação pós-sinodal sobre o tema, é da responsabilidade do Papa.

 

- O Papa também participa das reuniões?

 

R. Sim, ele está presente na maioria das sessões; escuta com muita atenção e faz anotações. Evidentemente, seus muitos compromissos impedem-lhe de estar presente o tempo todo.

 

- Como se fazem as intervenções dos padres sinodais em plenário?

 

R. Os interessados inscrevem-se e recebem a palavra pela ordem de inscrição. Cada um tem à disposição 5 minutos nas sessões temáticas e, 3 minutos, nas sessões com temas livres; nesses momentos, não se fazem propriamente debates, que ficam para os grupos, ou “círculos menores”. Além do latim, as línguas oficiais são 5: italiano, francês, espanhol, inglês e alemão. Há tradução simultânea. Os presidentes delegados conduzem as sessões, ajudados pelo secretário do Sínodo.

 

- Quais são os temas que mais aparecem nas intervenções?

 

R. Naturalmente, o tema do Sínodo dá o fio condutor para as reflexões. A partir daí, o raio dos assuntos tratados é muito amplo e enfoca tudo o que possa relacionar-se com o tema. Evidentemente, muito foi dito sobre a importância da palavra de Deus para a humanidade, sobre a revelação divina, a inspiração da Sagrada Escritura e sua interpretação autêntica. Mas falou-se também sobre as traduções da Bíblia para todas as línguas, uma vez que ainda faltam traduções em muito idiomas locais; da mesma forma, da promoção dos estudos bíblicos especializados, da edição da bíblia em formatos e preços acessíveis ao povo, da pastoral bíblica, ou melhor, da animação bíblica de toda a vida da Igreja..

 

- Existe algum assunto que se destaca, como verdadeira preocupação da Igreja em relação à Palavra de Deus?

 

R. Sim, vários pontos de convergência vão aparecendo. Antes de tudo, que é preciso fazer mais para tornar acessível e conhecida a Palavra de Deus; mas também apareceu a preocupação com os métodos adequados para a leitura e a acolhida, “com fé”, da palavra de Deus. Falou-se muito da leitura orante da Palavra de deus (lectio divina), da proclamação litúrgica da Palavra de Deus, da homilia, da necessidade de termos mais pregadores da palavra, ministros ordenados, religiosos e leigos, e de promovermos mais oportunidades para a proclamação e a acolhida da Palavra de Deus nas nossas comunidades.

 

- Entre os participantes do Sínodo há, certamente, também exegetas e estudiosos da Bíblia...

 

R. Sim, há um bom número de “peritos” em Sagrada Escritura e também muitos bispos formados em estudos bíblicos especializados. Destacou-se o papel fundamental dos exegetas, como um serviço prestado à comunidade que crê. A Igreja precisa de bons conhecedores do texto da Escritura para anunciá-lo com fidelidade. Mas também se destacou que a bíblia não deve ser lida apenas com os olhos do especialista, por curiosidade ou sede de conhecimentos: ela nos traz a palavra de Deus e, mais que tudo, na atitude da fé eclesial, deve proporcionar-nos o encontro com o seu autor: em última análise, é Deus que nos quer falar através da Escritura.

 

- Mais algum destaque sobre esta primeira semana do Sínodo?

 

R. Sim, foi repetido por muitos aquilo que já foi dito pelo Concílio vaticano II, na Dei Verbum: a Bíblia deve ser lida na fé da comunidade eclesial, e não de maneira subjetiva e individualista; deve ser lida com fé e com a disposição de “ouvir Deus”, para que o mesmo Espírito, que inspirou os autores dos textos sagrados e conduz a Igreja, também ajude a compreender aquilo que Deus hoje nos quer falar através do texto lido.  Por outro lado, destacou-se muito o papel dos ministros ordenados, que recebem o encargo especial de anunciar a Palavra aos irmãos e de ajudá-los a compreender e acolher essa mesma Palavra.

 

- Qual é o fruto esperado desta assembléia sinodal?

 

R. Espera-se, sem dúvida, uma renovada atenção e amor à Palavra de Deus, que é a única base segura para a vida da Igreja e para a humanidade. Os projetos humanos desaparecem com o passar do tempo; a palavra de Deus permanece eternamente.

 

 

+ Odilo P. Scherer

Arcebispo de S.Paulo

Roma 13/10/08

  

 

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