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Dom Odilo Pedro Scherer - Arcebispo da Arquidiocese de São Paulo

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14/10/2008

 

Ter a Bíblia; ler a Bíblia

 

Escrevo de Roma, onde estou participando da 12a Assembléia Geral do Sínodo dos Bispos. Após a abertura, no domingo, 5 de outubro, junto do túmulo do apóstolo São Paulo, tivemos uma semana de intensos trabalhos, sobretudo de muitas e variadas contribuições dos padres sinodais e de outros participantes da assembléia, que somam mais de 250 pessoas; nas intervenções sobre o tema, cada inscrito pode falar durante cinco minutos e, nas sessões de intervenções livres, apenas três minutos. Uma secretaria bem articulada recolhe tudo e vai transformando em texto as propostas que aparecem. O papa Bento 16 está presente quase integralmente nas sessões de trabalho, ouve tudo e faz anotações; o Sínodo, de fato, é um organismo consultivo e tem a finalidade de ajudar o papa, no espírito da colegialidade episcopal, em questões de importância para a toda a Igreja. No final dos trabalhos, as propostas da assembléia sinodal são entregues ao papa que, a partir delas, fará o documento póssinodal sobre o tema tratado. Ao longo da primeira semana, as intervenções foram muito rica se já deixaram transparecer alguns questões fundamentais naquilo que se refere ao tema da “Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”. Antes de tudo, que é preciso tornar amplamente acessível a palavra de Deus ao povo, de diversos modos: na proclamação litúrgica assídua, na iniciação à leitura da Escritura e, sobretudo, oferecendo traduções nas línguas faladas pelo povo. Pode parecer estranho, mas ainda existem numerosas línguas nas quais a Bíblia ainda não foi traduzida; isso acontece com as línguas locais da África, da Ásia e também da América Latina, faladas por grupos mais ou menos numerosos. Insistiu-se muito na leitura diária da Bíblia, seja em particular, seja em família ou na comunidade. Vários padres sinodais trouxeram testemunhos sobre iniciativas pastorais para a leitura diária da palavra de Deus em família, onde os pais têm um papel importante para introduzir os filhos no conhecimento e na veneração das Sagradas Escrituras. Um bispo da Indonésia falou do incentivo das crianças para aprenderem de cor os Evangelhos, talvez a exemplo daquilo que fazem os meninos nas escolas corânicas: aprendem de cor as palavras do Alcorão. Mas além de ler a palavra de Deus, é preciso compreendê-la corretamente; assim falou-se muito dos métodos de estudo e leitura da Bíblia, com particular insistência na leitura orante da Bíblia (lectio divina), um método que se vai espalhando no mundo inteiro; a Bíblia não é propriamente um livro de informações e de fórmulas e doutrinas religiosas, mas o testemunho sobre a relação de amor e salvação de Deus para com seu povo. Assim, mais que entender simplesmente a Bíblia, o método de leitura deve ajudar o leitor a colocar-se diante do autor da Bíblia, que falou e continua a falar ainda hoje a quem acolhe a Palavra revelada com fé. A Bíblia é formativa, mais que informativa. Vários bispos manifestaram sua preocupação em relação a certa leitura “materialista” da Bíblia, que não leva em conta o seu caráter religioso e inspirado; evidentemente, tal maneira de ler a Escritura só pode conduzir a interpretações erradas. Preocupação semelhante também foi manifestada em relação a certa leitura fundamentalista da Escritura, que significa interpretar a “letra” simplesmente pela letra, sem levar em conta os diversos contextos que estão por trás do texto; também esse tipo de leitura leva a erros. Nesses dois casos, falta algo de essencial à leitura da Escritura; ler e compreender a Bíblia no contexto da fé eclesial. O lugar da interpretação autêntica da Escritura é a comunidade eclesial; esta, com o auxílio da Tradição de fé e do Magistério vivo, assegura a interpretação correta da Bíblia. Não deixa de ser notório que todos os grandes desvios e rupturas na fé a Igreja ao longo da história aconteceram  quando alguém resolveu deixar de lado esta regra de uro,  difundindo por sua conta interpretações a Escritura não  concordes com a fé eclesial. Evidentemente, a interpretação de um texto também ão deve contradizer o conjunto da  Escritura: a Bíblia não desmente a Bíblia! Este é mais um critério importante para a correta interpretação da palavra de Deus. Não há dúvida de que temos muito que fazer. Nosso povo já tem garantido o acesso à Bíblia, mas seria preciso perguntar se também já tem verdadeiro amor à palavra de Deus. Conhece a Bíblia? Não se trata de criar mais ma pastoral, por  exemplo, uma “pastoral bíblica”, mas de marcar e inspirar biblicamente toda a pastoral.

 

 

Card. Odilo P. Scherer

Arcebispo de S.Paulo

14/10/2008

  

 

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