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Dom Odilo Pedro Scherer - Arcebispo da Arquidiocese de São Paulo

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27/10/2008

 

 

Feliz, quem confia na Palavra de Deus!

 

Durante a 12a Assembléia geral ordinária do Sínodo dos Bispos, em Roma, várias intervenções de Padres sinodais destacaram a esperança que vem da Palavra de Deus. Com expressões de profunda dor, o Patriarca católico de Bagdá, Iraque, falava da falta de paz e da violência que continuam marcando o seu país e, agora, também gerando uma onda de perseguições e martírios contra os poucos cristãos que lá ainda ficaram; nesta situação, dizia ele, a Palavra de Deus conforta os cristãos e os faz esperar por dias melhores.

 

Muitos foram os testemunhos sobre como os pobres, em todas as partes do mundo, acolhem com alegria e esperança a Palavra de Deus e nela percebem que Deus não apenas lhes fala, mas também os ouve. De fato, Jesus confirmou aquilo que já aparece em várias passagens do Antigo Testamento, sobretudo nos Profetas e nos Salmos: Deus escuta o grito do pobre, do órfão e da viúva, e vem em seu socorro. Por isso, pobres e sofredores encontram grande conforto e esperança na Palavra de Deus e a acolhem de coração aberto. Eles continuam testemunhando que “a Palavra do Senhor é proteção para aqueles que a Ele se confiam” (cf Sl 17/18).

 

Houve quem falou da alegria de jovens, ajudados a ler a Escritura e a compreendê-la como Palavra de Deus; da conversão de pessoas que descobrem a Bíblia e aprendem a lê-la com fé; houve um testemunho sobre a revista policial de fronteira em certo país onde, entre os  “produtos” retirados das malas e confiscados, pois sua entrada estava proibida, também constava a Bíblia. Ainda hoje há países que proíbem o uso da bíblia.; um bispo falou sobre os modos clandestinos encontrados para “ouvi-la”, em tais situações, recorrendo a modernos meios tecnológicos... Mas também se falou da reconciliação entre grupos tribais em luta, na África, depois da acolhida da Palavra de Deus.

 

Ainda outros Padres sinodais destacaram a importância de oferecer aos doentes, idosos e todas as pessoas fragilizadas em sua vida a Palavra de Deus, força animadora, pão da vida, “remédio” que faz viver. Essas pessoas precisam da nossa presença e palavra de carinho, da solidariedade e da assistência competente dos profissionais da saúde; mais ainda, porém, precisam saber que Deus lhes dirige a Palavra e está com elas, dando sentido ao sofrimento e à dor. Palavras humanas têm eficácia humana; a Palavra de Deus tem a força de Deus.

 

Mas também foi destacado no Sínodo que a cultura pós-moderna, muitas vezes tendente ao total relativismo e à indiferença religiosa, tem necessidade urgente de receber novamente o anúncio da Boa Nova, com simplicidade e coragem, com clareza e esperança; essa forma de cultura fechada sobre si mesma, também está “doente”; rejeitando os valores sólidos de referência para a vida humana e até o próprio Deus, ela acaba deixando o homem  desorientado e sem esperança. Por isso, os Padres sinodais, sobretudo da Europa e da América do Norte, insistiram na necessidade de ajudar as pessoas a terem um contato assíduo com a Palavra Deus: “Senhor, só tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6,68).

 

A Palavra de Deus é,  finalmente, luz que ajuda a compreender o mistério da morte, para a qual todos nos encaminhamos. Na solenidade de Todos os Santos e na comemoração dos Fiéis Defuntos, a Palavra de Deus nos recorda que a vida neste mundo não é tudo, mas já é um chamado à participação na vida plena de Deus e a sermos felizes, “bem-aventurados” para sempre, no “reino dos céus” (cf Mt 5,1-12). Somos convidados a acolher, desde já, o dom de Deus, que vem ao nosso encontro, e nos acolhe como seus filhos e filhas (cf 1 Jo 3,1-3).

 

Em tudo isso, há uma questão fundamental, ponto de partida para toda reflexão sobre a Bíblia, e sobre o qual deveremos insistir muito: A S. Escritura, na aparência um livro como tantos outros, é diferente de todos. Nela Deus nos dirige sua Palavra, convidando-nos a um diálogo de amor com Ele. Deus nos fala também hoje através de sua Palavra. Por isso, é preciso ler a Palavra da Escritura com fé, em sintonia e comunhão com a comunidade de fé, para não cair num subjetivismo estéril. Esta é a grande questão. Depois, tudo se torna mais fácil e frutífero.

 

+ Odilo P. Scherer

Arcebispo de S. Paulo

Roma 27/10/08

  

 

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