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Palavra do Papa

Urge no mundo da
comunicação uma info-ética
Há que se interrogar (hoje) se é sensato deixar que
os instrumentos de omunicação social se ponham ao
serviço de um protagonismo indiscriminado ou acabem
em poder de quem se serve deles para manipular as
consciências. Não se deveria, antes, fazer com que
permaneçam ao serviço da pessoa e do bem comum e
favoreçam “a formação ética do homem, o crescimento
do homem interior” (Spe salvi, 22)? A sua influência
extraordinária na vida das pessoas e da sociedade é
um fato amplamente reconhecido, mas hoje há
que pôr em evidência a viravolta, diria mesmo a
mudança verdadeira e própria de função, que os
meios de comunicação enfrentam. Hoje, de modo sempre
mais acentuado, a comunicação parece às vezes ter a
pretensão não só de apresentar a realidade, mas
também de a determinar graças à capacidade e
força de sugestão que possui. Constata- se, por
exemplo, que em certos casos os meios de comunicação
são utilizados, não para um correto serviço de
informação, mas para “criar” os próprios
acontecimentos. Esta perigosa alteração da sua
função é vista com preocupação por muitos
Pastores. Exatamente porque se trata de realidades
que incidem profundamente em todas as dimensões da
vida humana (moral, intelectual, religiosa,
relacional, afetiva, cultural), estando em jogo o
bem da pessoa, impõe-se reafirmar que nem tudo
aquilo que for tecnicamente possível é eticamente
praticável. Por isso, o impacto dos meios de
comunicação sobre a vida do homem contemporâneo
coloca questões inevitáveis, que aguardam decisões e
respostas não mais adiáveis. O papel que os
instrumentos de comunicação assumiram na sociedade
é já considerado parte integrante da questão
antropológica, que surge como desafio crucial do
terceiro milênio. De modo semelhante ao que se
verifica no setor da vida humana, domatrimônio e da
família e no âmbito das grandes questões
contemporâneas relativas à paz, à justiça e à defesa
da criação, também no setor das comunicações sociais
estão em jogo dimensões constitutivas do homem e da
sua verdade. Quando a comunicação perde as amarras
éticas e se esquiva ao controle social, acaba por
deixar de ter em conta a centralidade e a dignidade
inviolável do homem, arriscando-se a influir
negativamente sobre a sua consciência, sobre as suas
decisões, e a condicionar em última análise a
liberdade e a própria vida das pessoas. Por este
motivo é indispensável que as comunicações sociais
defendam ciosamente a pessoa e respeitem plenamente
a sua dignidade. São muitos a pensar que, neste
âmbito, seja atualmente necessária uma “info- tica”
tal como existe a bio-ética no campo da medicina e
da pesquisa científica relacionada com a vida. É
preciso evitar que a mídia se torne o megafone do
materialismo econômico e do relativismo ético,
verdadeiras pragas do nosso tempo.Pelo contrário,
eles podem e devem contribuir para dar a conhecer a
verdade sobre o homem, defendendo-a face àqueles que
tendem a negá-la ou a destruí-la.Pode-se mesmo
afirpelos que a busca e a apresentação da
verdade sobre o homem constituem a vocação mais
sublime da comunicação social. Usar para tal fim as
linguagens todas e cada vez mais belas e primorosas
de que dispõem a mídia é uma tarefa grandiosa
confiada, em primeiro lugar, aos responsáveis e
operadores do setor. Mas tal tarefa, de algum modo,
diz respeito a todos nós, porque todos, nesta época
da globalização, somos usuários e operadores
de comunicações sociais. A nova midia, sobretudo
telefonia e internet, estão modificando a própria
fisionomia da comunicação, e talvez esta seja uma
ocasião preciosa para a redesenhar, ou seja, para
tornar mais visíveis, como disse o meu venerado
predecessor João Paulo II, os traços essenciais e
irrenunciáveis da verdade sobre a pessoa humana (cf.
Carta apostólica O rápido desenvolvimento, 10). O
homem tem sede de verdade, anda à procura da verdade;
demonstram- no nomeadamente a atenção e o sucesso
registados por muitas publicações, programas ou
filmes de qualidade, onde são reconhecidas ebem
apresentadas a verdade, a beleza e a grandeza da
pessoa, incluindo a sua dimensão religiosa.
Jesus disse: “Conhecereis a verdade e a verdadevos
libertará” (Jo 8, 32). A verdade que nos torna
livres é Cristo, porque só Ele pode corresponder
plenamente à sede de vida e de amor que está no
coração do homem. Quem O encontrou e se apaixona
pela sua mensagem, experimenta o desejo irreprimível
de partilhar e comunicar esta verdade: “O que era
desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os
nossos olhos – escreve São João –, o que
contemplámos, o que tocámos com as nossas mãos
acerca do Verbo da Vida, é o que nós vos anunciamos
[…], para que estejais também em comunhão connosco.
E a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho,
Jesus Cristo. Escrevemos tudo isto, para que a vossa
alegria seja completa” (1 Jo 1, 1-3). (Da
mensagem para o Dia Mundial das Comunicações – 4 de
maio de 2008)
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