Semanário da Arquidiocese de São Paulo - Ano 53 • nº 2695 • 29 de abril de 2008

Edição 29.abr.2008

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Urge no mundo da

comunicação uma info-ética

 

Há que se interrogar (hoje) se é sensato deixar que os instrumentos de omunicação social se ponham ao  serviço de um protagonismo indiscriminado ou acabem em poder de quem se serve deles para manipular as consciências. Não se deveria, antes, fazer com que permaneçam ao serviço da pessoa e do bem comum e favoreçam “a formação ética do homem, o crescimento do homem interior” (Spe salvi, 22)? A sua influência extraordinária na vida das pessoas e da sociedade é um fato amplamente reconhecido, mas hoje  há que pôr em evidência a viravolta, diria mesmo a mudança verdadeira e  própria de função, que os meios de comunicação enfrentam. Hoje, de modo sempre mais acentuado, a comunicação parece às vezes ter a pretensão não só de apresentar a realidade, mas também de a determinar graças à capacidade  e força de sugestão que possui. Constata- se, por exemplo, que em certos casos os meios de comunicação são utilizados, não para um correto serviço de informação, mas para “criar” os próprios acontecimentos. Esta perigosa alteração da sua função é vista com preocupação por  muitos Pastores. Exatamente porque se trata de realidades que incidem profundamente em todas as dimensões da vida humana (moral, intelectual, religiosa, relacional, afetiva, cultural), estando em jogo o bem da pessoa, impõe-se reafirmar que nem tudo aquilo que for tecnicamente possível é eticamente praticável. Por isso, o impacto dos meios de comunicação sobre a vida do homem contemporâneo coloca questões inevitáveis, que aguardam decisões e respostas não mais adiáveis. O papel que os instrumentos de comunicação assumiram na sociedade  é já considerado parte integrante da questão antropológica, que surge como desafio crucial do terceiro milênio. De modo semelhante ao que se verifica no setor da vida humana, domatrimônio e da família e no âmbito das grandes questões contemporâneas relativas à paz, à justiça e à defesa da criação, também no setor das comunicações sociais estão em jogo dimensões constitutivas do homem e da sua verdade. Quando a comunicação perde as amarras éticas e se esquiva ao controle social, acaba por deixar de ter em conta a centralidade e a dignidade inviolável do homem, arriscando-se a influir negativamente sobre a sua consciência, sobre as suas  decisões, e a condicionar em última análise a liberdade e a própria vida das pessoas. Por este motivo é indispensável que as comunicações sociais defendam ciosamente a pessoa e respeitem plenamente a sua dignidade. São muitos a pensar que, neste âmbito, seja atualmente necessária uma “info- tica” tal como existe a bio-ética no campo da medicina e da pesquisa científica relacionada com a vida. É preciso evitar que a mídia se torne o megafone do materialismo econômico e do relativismo ético, verdadeiras pragas do nosso tempo.Pelo contrário, eles podem e devem contribuir para dar a conhecer a verdade sobre o homem, defendendo-a face àqueles que tendem a negá-la  ou a destruí-la.Pode-se mesmo afirpelos que a busca e a apresentação da   verdade sobre o homem constituem a vocação mais sublime da comunicação social. Usar para tal fim as linguagens todas e cada vez mais belas e primorosas de que dispõem a mídia é uma tarefa  grandiosa confiada, em primeiro lugar, aos responsáveis e  operadores do setor. Mas tal tarefa, de algum modo, diz respeito a todos nós, porque todos, nesta época da  globalização, somos usuários e operadores de comunicações sociais. A nova midia, sobretudo telefonia e internet, estão modificando a própria fisionomia da comunicação, e talvez esta seja uma ocasião preciosa para a redesenhar, ou seja, para tornar mais visíveis, como disse o meu venerado predecessor João Paulo II, os traços essenciais e irrenunciáveis da verdade sobre a pessoa humana (cf. Carta apostólica O rápido desenvolvimento, 10). O homem tem sede de verdade, anda à procura da verdade; demonstram- no nomeadamente a atenção e o sucesso registados por muitas publicações, programas ou filmes de qualidade, onde são reconhecidas ebem apresentadas a verdade, a beleza e a grandeza da pessoa, incluindo a  sua dimensão religiosa. Jesus disse: “Conhecereis a verdade e a verdadevos libertará” (Jo 8, 32). A  verdade que nos torna livres é Cristo, porque só Ele pode corresponder plenamente à sede de vida e de amor que está no coração do homem. Quem O encontrou e se apaixona pela sua mensagem, experimenta o desejo irreprimível de partilhar e comunicar esta verdade: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos – escreve São João –, o que contemplámos, o que tocámos com as nossas mãos acerca do Verbo da Vida, é o que nós vos anunciamos […], para que estejais também em comunhão connosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo. Escrevemos tudo isto, para que a vossa alegria seja completa” (1 Jo 1, 1-3). (Da mensagem para o Dia Mundial das Comunicações – 4 de maio de 2008)        

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