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Encontro
com o
Pastor

Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer
Arcebispo metropolitano de São Paulo
Comunicar a verdade e o bem
Estamos em plena novena de Pentecostes,
preparando-nos para a solenidade da vinda do
Espírito Santo sobre os apóstolos no início da vida
da Igreja. O Espírito de Deus também hoje continua a
conduzir a Igreja e nos dá a certeza de que a Igreja
não depende apenas de nós, mas conta com a “força do
alto” em todos os momentos de sua história. Enquanto
nos preparamos para Pentecostes, realizamos, no
Brasil, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos,
com o lema “Orai sem cessar”. A Semana já acontece
há cem anos; um belo caminho já foi percorrido pelos
cristãos que querem levar a sério o pedido de Jesus
Cristo: “Pai, que todos sejam um”. O que parecia ser
impossível vai acontecendo; apesar das dificuldades
que ainda permanecem, é inegável que um bom trecho
de caminho para a unidade dos discípulos de Jesus já
foi percorrido durante este século. E os esforços
continuam, acompanhados da oração confiante para que
o Espírito de Deus nos ajude a realizar e a viver
sempre mais a unidade da Igreja. Mas desejo retomar
ainda a mensagem do papa para o 42º Dia Mundial das
Comunicações Sociais, cele brado no domingo passado,
Ascensão do Senhor ao céu. Em síntese, o papa pediu
na mensagem que os meios e comunicação sirvam à
busca e à partilha da verdade. A questão é
mais que pertinente em nossos dias. Graças à
evolução tecnológica, os meios de comunicação
alcançaram uma importância enorme na vida das
pessoas e na convivência social; não apenas servem
para informar, mas também ara formar e incutir ou
mudar convicções, comportamentos e decisões. Sua
potencialidade enorme pode ser colocada a serviço de
um mundo mais justo e solidário, como também, pelo
contrário, de sistemas de dominação e de lógicas
ditadas pelo egoísmo e pelos nteresses
predominantes do momento. Muitas vezes, a pretexto
de “mostrar a realidade”, de fato, estão sendo
propostos, como certos e desejáveis, certos modelos
errados ou, pelo menos, muito uestionáveis de
vida pessoal, familiar e social. Na busca de
audiência a todo o custo, por vezes, não se hesita
em mostrar com insistência o que há de mais
deprimente nos comportamentos humanos; até a
violência, o crime e a dor do próximo acabam sendo
transformados em espetáculo. Acompanhamos, nessas
semanas passadas, a exploração midiática do
assassinato da menina Isabella, na região norte de
São Paulo. A excessiva exposição do caso acabou
desencadeando uma espécie de corrida para mostrar,
em primeira mão, detalhes “exclusivos” da
investigação ainda em curso, levando as pessoas
fazerem pré-julgamentos e até a pré-condenação
de pessoas suspeitas. Mais que a apresentação de um
triste fato real, arecia que um filme policial
estava sendo gravado, com uma infinidade de atores,
coadjunvantes e curiosos... o caso Isabella, valeria
a pena ma reflexão atenta sobre o papel da
mídia no comportamento das pessoas. Pergunto:
qual será a influência, sobre as crianças em tenra
idade, desse intenso bombardeio de imagens e
ensagens sobre o casal suspeito de ter matado a
criança?! Será que as crianças, agora, estariam
se sentindo mais confiantes e protegidas pelos
próprios pais? Ou também meaçadas por eles?
Dirão que o papel da imprensa é informar e não lhes
impor juízos éticos. Em parte, isso é verdade; mas
há que se levar em conta que as pessoas são
induzidas a conclusões de caráter ético, dependendo
da forma como os fatos são apresentados. Muitas
vezes, o poder da mídia deixa de lado qualquer
compromisso com a ética e desconsidera a dignidade
inviolável do ser humano, influindo de maneira
negativa sobre a consciência das pessoas; nesse caso,
pode-se falar até em manipulação das consciências. A
comunicação social, com freqüência, torna-se
porta-voz de modelos de comportamento ou de
ideologias baseadas no materialismo econômico e no
relativismo ético. Nosso tempo, caracterizado pela
comunicação intensa, não deveria passar para a
história como um período de alienação e de confusão,
mas como um tempo precioso de investigação da
verdade, para o desenvolvimento da comunhão entre as
pessoas e os povos. Em tempos de tanta comunicação,
seria preciso definir uma “info-ética”, assim como
está sendo desenvolvida uma bioética; não se trata
de estabelecer novamente a censura, mas de definir,
a partir da cultura do povo, critérios a serem
levados em conta pelos comunicadores. O próprio
usuário ou “consumidor” a mídia precisaria
manifestar-se mais em relação às matérias que
lhe são passadas.
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