Semanário da Arquidiocese de São Paulo - Ano 53 • nº 2696 • 06 de maio de 2008

Edição 06.mai.2008

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Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer

Arcebispo metropolitano de São Paulo

 

Comunicar a verdade e o bem

 

Estamos em plena novena de Pentecostes, preparando-nos para a solenidade da vinda do Espírito Santo sobre os apóstolos no início da vida da Igreja. O Espírito de Deus também hoje continua a conduzir a Igreja e nos dá a certeza de que a Igreja não depende apenas de nós, mas conta com a “força do alto” em todos os momentos de sua história. Enquanto nos preparamos para Pentecostes, realizamos, no Brasil, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, com o lema “Orai sem cessar”. A Semana já acontece há cem anos; um belo caminho já foi percorrido pelos cristãos que querem levar a sério o pedido de Jesus Cristo: “Pai, que todos sejam um”. O que parecia ser impossível vai acontecendo; apesar das dificuldades que ainda permanecem, é inegável que um bom trecho de caminho para a unidade dos discípulos de Jesus já foi percorrido durante este século. E os esforços continuam, acompanhados da oração confiante para que o Espírito de Deus nos ajude a realizar e a viver sempre mais a unidade da Igreja. Mas desejo retomar ainda a mensagem do papa para o 42º Dia Mundial das Comunicações Sociais, cele brado no domingo passado, Ascensão do Senhor ao céu. Em síntese, o papa pediu na mensagem que os meios e comunicação sirvam à busca e  à partilha da verdade. A questão é mais que pertinente em nossos dias. Graças à evolução tecnológica, os meios de comunicação alcançaram uma importância enorme na vida das pessoas e na convivência social; não apenas servem para informar, mas também ara formar e incutir ou  mudar convicções, comportamentos e decisões. Sua potencialidade enorme pode ser colocada a serviço de um mundo mais justo e solidário, como também, pelo contrário, de sistemas de dominação e de lógicas ditadas pelo egoísmo e pelos nteresses  predominantes do momento. Muitas vezes, a pretexto de “mostrar a realidade”, de fato, estão sendo propostos, como certos e desejáveis, certos modelos errados ou, pelo menos, muito uestionáveis de  vida pessoal, familiar e social. Na busca de audiência a todo o custo, por vezes, não se hesita em mostrar com insistência o que há de mais deprimente nos comportamentos humanos; até a violência, o crime e a dor do próximo acabam sendo transformados em espetáculo. Acompanhamos, nessas semanas passadas, a exploração midiática do assassinato da menina Isabella, na região norte de São Paulo. A excessiva exposição do caso acabou desencadeando uma espécie de corrida para mostrar, em primeira mão, detalhes “exclusivos” da investigação ainda em curso, levando as pessoas  fazerem pré-julgamentos e até a  pré-condenação de pessoas suspeitas. Mais que a apresentação de um triste fato real, arecia que um filme policial  estava sendo gravado, com uma infinidade de atores, coadjunvantes e curiosos... o caso Isabella, valeria a pena  ma reflexão atenta sobre o papel da mídia no comportamento das  pessoas. Pergunto: qual será a influência, sobre as crianças em tenra idade, desse intenso bombardeio de imagens e ensagens sobre o casal suspeito de ter matado a criança?! Será que as crianças, agora, estariam  se sentindo mais confiantes e protegidas pelos próprios pais? Ou também meaçadas por eles?  Dirão que o papel da imprensa é informar e não lhes impor juízos éticos. Em parte, isso é verdade; mas há que se levar em conta que as pessoas são induzidas a conclusões de caráter ético, dependendo da forma como os fatos são apresentados. Muitas vezes, o poder da mídia deixa de lado qualquer compromisso com a ética e desconsidera a dignidade inviolável do ser humano, influindo de maneira negativa sobre a consciência das pessoas; nesse caso, pode-se falar até em manipulação das consciências. A comunicação social, com freqüência, torna-se porta-voz de modelos de comportamento ou de ideologias baseadas no materialismo econômico e no relativismo ético. Nosso tempo, caracterizado pela comunicação intensa, não deveria passar para a história como um período de alienação e de confusão, mas como um tempo precioso de investigação da verdade, para o desenvolvimento da comunhão entre as pessoas e os povos. Em tempos de tanta comunicação, seria preciso definir uma “info-ética”, assim como está sendo desenvolvida uma bioética; não se trata de estabelecer novamente a censura, mas de definir, a partir da cultura do povo, critérios a serem levados em conta pelos comunicadores. O próprio usuário ou “consumidor” a mídia precisaria manifestar-se  mais em relação às matérias que lhe são passadas.

 

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