Semanário da Arquidiocese de São Paulo - Ano 53 • nº 2710 • 12 de agosto de 2008

Edição 12.ago.2008

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Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer

Arcebispo metropolitano de São Paulo

 

Não mexam na família!

 

No domingo, 10 de agosto, comemoramos o Dia dos Pais e nossas atenções voltaram-se para os pais que, merecem nossa sincera homenagem e apreço. Parabéns aos pais, que assumem corajosamente sua paternidade e se esforçam para proporcionar aos filhos que geraram tudo aquilo que precisam para se desenvolverem como membros dignos da grande comunidade humana. Homenagem também a tantos pais que têm dificuldades para dar aos filhos o que precisam; lembrem sempre que a riqueza maior para os filhos é a presença, o carinho e o bom exemplo do pai. Esta é também a semana da família, promovida todos os anos pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil em agosto, mês das vocações; com isso, a Igreja sinaliza que casar e formar família, além de ser um direito natural de toda pessoa, também é uma “vocação”. Numa visão de fé sobre a existência humana, entendemos que Deus chama, de modo misterioso, o homem e a mulher a viverem o amor humano no casamento e na família e a colaborarem na obra de sua criação, dando vida a novas criaturas humanas. Por isso, a Igreja confirma e abençoa os matrimônios e associa os casais cristãos à sua própria missão na difusão do Evangelho de Cristo. A Igreja proclama que o casamento nos planos divinos é caracterizado pela união entre um homem e uma mulher, que se unem por amor sincero e para toda a vida, estando dispostos também a acolher os filhos gerados nesta união. Sabemos que existem hoje, como sempre existiram ao longo da história, outras idéias a respeito do casamento; e também sempre houve pressão sobre a Igreja para que ela modificasse seu ensinamento sobre o casamento e a família, sobretudo em relação à indissolubilidade (divórcio) e à unidade (poligamia) do casamento. A Igreja, no entanto, mantém-se fiel aos ensinamentos de Cristo: quando lhe perguntaram, se era lícito ao homem divorciar-se de sua mulher, ele respondeu: “não foi assim que Deus quis no princípio... Portanto, não separe o homem o que Deus uniu” (cf Mt 19,8). A Igreja não desconhece as dificuldades e os sofrimentos de muitos casais, que vivem numa união considerada irregular; mesmo não podendo legitimar essas situações, pois estaria agindo contra o ensinamento de Cristo, ela não condena esses casais nem os exclui da participação da vida da Igreja, mas os acompanha com solicitude e os acolhe e encoraja a viverem sua fé naquilo que é possível; e muito é possível! Encoraja também os casais católicos, que vivem juntos sem estarem casados, a procurar sua paróquia para a celebração do casamento diante de Deus e da Igreja. E incentiva os casais jovens a se prepararem bem e a realizarem com plena consciência e responsabilidade o seu casamento. É preocupante que o casamento religioso esteja sendo valorizado sempre menos, até nas famílias católicas! É um valor importante da fé e da vida cristã que está sendo deixado de lado. Atualmente, há novas pressões sobre o casamento e a instituição familiar. No Brasil está sendo elaborado o Estatuto das Famílias (Projeto de Lei nº 2285/2007), com alguns aspectos preocupantes. Não há dúvida que a família deve merecer as atenções do Estado e dos seus poderes representativos; a elaboração desse Estatuto, no entanto, precisa ser acompanhada de maneira atenta pela sociedade e as organizações familiares ligadas à Igreja; a família natural não deveria sair descaracterizada, nem deveriam ser perdidos os princípios  fundamentais que regem a família humana. Se todas as formas de união e de não-união forem igualmente consideradas família, ficará prejudicada e comprometida a família natural e poderemos ter conseqüências enormes para a convivência humana. O próprio Estado acabará por assumir atribuições que cabem, normalmente, à família; e sabemos bem que o Estado não é pai nem mãe ou irmão, nem dá carinho a ninguém. A família natural, formada a partir da união de um homem e de uma mulher, cumpre uma função social e humana insubstituível. A sabedoria experimentada pelo tempo ensina que a família é a célula básica da sociedade; se for amparada no ordenamento jurídico e por boas políticas públicas, ela assegura de maneira eficaz a saúde do corpo social. Poderíamos dizer também que a família é a “célula tronco embrionária” de todo o corpo social; ela tem um potencial enorme e dela derivam a vitalidade e o dinamismo de todo os organismos da comunidade humana. Mas se esta célula for mexida e descaracterizada e se passarmos a experimentalismos com o casamento e a família, ninguém sabe onde isso vai acabar. É melhor respeitar a natureza instituição familiar e ampará-la devidamente, para que possa desenvolver-se e assumir bem aquilo que é próprio dela.

   

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